DRA MARLENE NOBRE






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"Há ALGO QUE EU LUTO POR ALCANÇAR SER SERVIDORA DO MESTRE JESUS E DE KARDEC DENTRO DO POUCO QUE POSSO OFERECER "Marlene nobre

Até o último dia de sua existência   terrena, 5 de janeiro de  2015, data na qual mais uma edição  da Folha Espírita seguia para  a gráfica, Marlene Rossi Severino  Nobre foi o que buscava ser, uma  grande trabalhadora espírita. Focada  nos ensinamentos de Jesus  e de Kardec, lutava para anto,  diariamente, dividindo seu tempo  entre as tarefas do Grupo Espírita  Cairbar Schutel, na capital paulista,  que incluíam as atividades  mediúnicas de psicofonia e psicografia;  do Lar do Alvorecer, em  Diadema, na Grande São Paulo;  das Associações Médico-Espíritas  do Brasil e Internacional; dos  programas Diálogos Médicos,  na Rádio Boa Nova; Portal de Luz,  na tevê Aberta São Paulo; além  da Folha Espírita, que, ao lado do  marido, Freitas Nobre, ajudou a  fundar.  Com tantas atividades desenvolvidas  aos 77 anos, vivenciava,  com muita organização, aquilo  que costumava dizer, que o trabalho  deveria ser dado a quem  pouco tempo tivesse, porque,  certamente, seria realizado. E foi  dessa forma que exerceu sua liderança  nas diversas frentes que  atuou, deixando, acima de tudo,  muitos ensinamentos, não só em  atitudes e palavras, mas nos 11 livros  que publicou pela FE Editora  e no vasto conhecimento ligado  à causa médico-espírita.  Quando a notícia de seu retorno  à Pátria Espiritual chegou,  discutiu-se mudar a edição deste  jornal em sua homenagem. Mas  seria muito difícil registrar em  poucas linhas, sem comprometer  o seu fechamento, quem foi  Marlene Nobre e a importância  do legado que nos deixou. Preferimos,  então, seguir um de seus  pedidos, que já vinha de seu fundador  Freitas Nobre, e que procuramos  cumprir todos estes anos:  que o jornal não deveria atrasar,  em hipótese alguma. E decidimos,  então, dedicar a ela esta  edição, contando um pouco da  sua história e a importância do  trabalho que realizou em prol da  divulgação da Doutrina e do ideal  médico-espírita. Sabemos que,  se estivesse aqui, certamente  Marlene se sentiria constrangida  com nosso ato, pois ela acreditava  estar muito longe de merecer  o carinho e confiança dos amigos  da seara espírita, mas ela há  de compreender. Os bons exemplos  merecem ser registrados.


Doutrina do berço a Chico Xavier

Marlene Rossi Severino Nobre nasceu em 1937, em Severínia, interior de São Paulo, filha de pais espíritas – Pedro Severino Júnior, de Monte Azul Paulista (SP), e Ida Rossi Severino, de Guariba (SP), ambos comprometidos com a causa espírita desde solteiros e muito ligados a Cairbar Schutel, o baluarte do Espiritismo de Matão (SP), que tanta contribuição deu e continua dando à divulgação, ao
estudo e à vivência da Doutrina. Sua mãe foi, aos 19 anos, ainda solteira, a mais jovem presidente de centro espírita do Brasil, em uma casa construída em Monte Verde pelo seu avô – Aristodemo Rossi. Seu tio, Leonardo Severino, irmão de seu pai, trabalhou a vida toda em favor das obras de Matão, viajando para conseguir assinaturas do jornal O Clarim e da Revista Internacional de Espiritismo, ao lado de Giacomo Di Bernardo e de outros pioneiros do interior paulista. Conforme nos contou a própria Marlene, seus pais tiveram um lar muito harmonioso e ensinaram aos seus oito filhos o amor ao Mestre Jesus e a Kardec. “Eles não tinham ambição material. Criaram-nos dentro dos padrões da simplicidade e sempre diziam que o único tesouro que deixariam era O Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, interpretado por Allan Kardec. Uma grande herança também que recebemos foi a de valorizar as amizades”, contou certa vez.
A Medicina e o médium

Após trabalhar como funcionária, de 1950 a 1956, do Colégio Paes Leme, na capital paulista, em 1957 Marlene iniciou o curso de Medicina na Faculdade Federal do Triângulo Mineiro, em Uberaba (MG). Foi em outubro de 1958, às vésperas da mudança de Chico Xavier para a cidade, que teve a oportunidade de conhecer o médium, quando ele pediu ao colega de faculdade de Marlene, Waldo Vieira, que a levasse até ele. A estudante já havia lido suas obras e ficou admirada com o convite que fez para que trabalhasse com ele nas sessões públicas da Comunhão Espírita Cristã, a partir de janeiro de 1959, quando ele já estaria instalado definitivamente em
Uberaba. E foi o que aconteceu. Durante cerca de quatro anos, de janeiro de 1959 a dezembro de 1962, ela esteve diretamente ligada ao Movimento Espírita em Uberaba, particularmente aos trabalhos da Comunhão Espírita Cristã (CEC), com Chico Xavier. Além das tarefas nas sessões públicas da CEC, deu aulas de moral cristã na Evangelização Infantil do Centro Espírita Uberabense e fez dois programas de rádio. Mesmo tendo se mudado para São Paulo, em 1963, a amizade com o médium permaneceu a mesma, até a sua desencarnação, em 2002. “Guardo desse período da minha vida as mais gratas lembranças. Fui profundamente marcada pela bondade de Chico Xavier, por sua humildade genuína. Por isso mesmo, reconheço a enorme distância que nos separa do ponto de vista espiritual e a grande responsabilidade que assumi por ter trabalhado com ele e tomado conhecimento de sua obra”, costumava declarar. De 1963 a 1967 Marlene foi estagiária do prof. dr. José Medina, no Departamento de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital das Clínicas de São Paulo. Posteriormente, estagiou nos Hospitais Broca e Boucicault, ambos em Paris. Em 1968 começou a trabalhar para o Instituto
de Previdência (Inamps), onde se aplicou por 30 anos no serviço de prevenção do câncer em senhoras. Aposentada em 1994, no ano seguinte assumiu a Presidência da Associação Médico-Espírita do Brasil, acompanhando-a desde a sua fundação, até a sua desencarnação. Marlene também fez parte da primeira Diretoria da Associação Médico-Espírita de São Paulo (AME-SP), fundada em 30 de março de 1968, da qual se originaram as outras AMEs, inclusive a brasileira

Uma vida pela causa espírita
Quando nos ocupamos com o passado,
ele se torna presente, foi o que constatei ao rever meu passado, lembrar a convivência em família e o trabalho desenvolvido com minha irmã, Marlene Nobre, na seara espírita. As imagens foram ganhando vida própria em minhas embranças, que agora vou procurar transmitir em palavras, os acontecimentos que recordamos de sua vida. Nossos pais, Pedro e Ida, se conheceram
na militância espírita, e dedicaram suas vidas à família e à Doutrina Espírita. Tiveram oito filhos, sendo Marlene a única menina, daí ser paparicada por todos. Ela possuía uma vivacidade admirável, e acalentou desde criança o desejo de ser médica. Durante a fase estudantil, destacou-se pela inteligência e pela disciplina. Como a família não contava com facilidades financeiras, teve sempre de trabalhar e estudar.
Em 1956 prestou exames na Faculdade de Medicina de Uberaba, obteve promoção, e concluiu o curso em 1962. Chico Xavier a convidou para trabalhar com ele, quando transferiu residência de Pedro Leopoldo para Uberaba, em 1959. Nos quatros anos de convivência com
o médium, Marlene tece nele o professor, que deixaria marcas profundas em sua formação espiritual. Em 1963, de volta à cidade de São Paulo, ela já estava totalmente integrada em nossas atividades espirituais e nosso grupo espírita ganhou uma dimensão maior Marlene adquiriu o sobrenome Nobre depois do casamento, em 1964, com o político Freitas Nobre, um dos expoentes do MDB autêntico durante o regime militar. O casal teve três filhos: Marcos, Marcelo, e a filha do coração, Marília. Foi uma das fundadoras da Associação Associação
Médico-Espírita de São Paulo, do Brasil e Internacional. Marlene foi uma das principais conferencistas do Movimento Espírita no Brasil
e no mundo, e seus livros são referência para estudo nas casas espíritas. Fundou com o esposo, em 1974, a Folha Espírita, e semanalmente divulgava a Doutrina em programas de rádio e televisão. Possuía uma força de vontade e um ideal contagiantes, e as pessoas nos perguntavam onde ela encontrava tanta energia. Era muito procurada para orientar pessoas com problemas, e sempre atendia todos com atenção. Ela teve uma trajetória existencial comprometida com os propósitos de servir à causa espírita. Estão registrados nesta edição os dados de uma vida que demonstram a sua dedicação extrema ao ideal que abraçou. Como explicar a sua visão vanguardeira, que abriu muitas frentes de trabalho, não só nos estudos espíritas, na assistência social, mas, sobretudo, no Movimento Médico-Espírita, criando ramificações no Brasil e no mundo? Diante do trabalho realizado por Marlene Nobre, uma pergunta nos foi formulada por uma jornalista:
– Qual foi o maior legado que Marlene Nobre deixou? Creio que foi o exemplo do trabalho abnegado e perseverante, desenvolvi nos seus 77 anos de existência, para construir um mundo melhor, onde nós pudéssemos viver em paz. Ela nos ensinou que quando colocamos
o amor à frente das dificuldades, dos desafios, nunca nos faltam a força e a coragem para servir com Jesus. Agradecemos a Deus pela nossa convivência ao seu lado, trabalhando juntos,
por mais de 60 anos!

O casamento, os filhos e as diversas atividades


O encontro com Freitas Nobre, com quem viria a se casar em maio de 1964, aconteceu dois anos antes, nos trabalhos da Comunhão Espírita Cristã, quando ele realizou um grande sonho: conhecer Chico Xavier. Naquele ano, Freitas Nobre era vice-prefeito de São Paulo, governando a cidade ao lado de Prestes Maia. Antes ele havia sido vereador da capital por várias legislaturas. Marlene se casou com Freitas Nobre, logo após ele ter deixado o cargo, e teve dois filhos: Marcos e Marcelo. Mas também teve uma filha pelo coração, Marília Oliveira Chaves. Apesar de Freitas ter sido deputado federal por quatro legislaturas, desde a primeira eleição, em 1968, Marlene nunca participou da vida social e política de Brasília, tendo visitado a capital federal raras vezes. “Freitas nunca desejou que nos mudássemos de São Paulo e isso veio ao encontro do meu ideal de servir à causa espírita”, revelou. Em 1963, ela havia iniciado, com os pais, as tarefas de assistência aos mais carentes em Santo André e São Caetano do Sul, e, em 1966, em Diadema, na Grande São Paulo, e, conforme instrução de Chico Xavier, a fundação do Grupo Espírita Cairbar Schutel, no Jabaquara, na capital paulista. De 1963 a 1991, Marlene esteve mais ligada às tarefas do Grupo Espírita Cairbar Schutel, tanto doutrinárias quanto assistenciais, participando, principalmente a partir de 1977, da Creche Lar do Alvorecer. Nesse período, pouco fez palestras, a não ser no próprio grupo, em algumas casas espíritas dirigidas por amigos e conhecidos e em simpósios da AME-SP. Mas, em 1968, participou de um marco importante, a fundação da Associação Médico-Espírita de São Paulo, como primeira secretária. “Muitos colegas, dentre os quais Luiz Monteiro de Barros, Adroaldo Modesto Gil, Antonio Ferreira Filho, Eurico Branco Ribeiro, Maria Julia Prieto Peres, Alberto Lyra, Miguel e Luiz Dorgan, uniram-se sob a inspiração de Batuíra e Bezerra de Menezes, através do médium Spartaco ghilardi, para lançar as bases do Movimento Médico-Espírita no Brasil”, lembrava Marlene. A partir de 1974 passou a colaborar
também com a Folha Espírita, fundada pelo marido, Freitas Nobre, por incentivo de Chico Xavier, e, em fevereiro de 1990, Marlene assumiu a Presidência da Associação Médico-Espírita de São Paulo que atravessava um período de muita turbulência espiritual. Com a desencarnação do marido, em 1990, foi chamada pelo dr. Bezerra de Menezes, cerca de 15 dias depois, para a tarefa de aglutinar colegas, empenhar-se para a fundação das AMEs nos Estados e formar a AME- -Brasil. “A partir daí começou outra etapa na minha vida, porque fiquei mais ligada ao Movimento Médico-Espírita, sem, no entanto, abandonar nenhuma das tarefas a que estava anteriormente vinculada”. Em 1995 foi formada a AME-Brasil e, em 1999, a AME-Internacional. Muitos se perguntavam como Marlene conseguia se organizar com tantas atividades. E ela dizia: “Tenho a contribuição da comunicação cibernética e de dar conta de dezenas de e-mails por dia, entrevistas, gravações semanais, e, tudo isso, costurado com as minhas frequentes viagens de divulgação do ideal médico-espírita. Para isso, não tiro férias, trabalho muito nos feriados e raramente tenho outra atividade que não seja doutrinária. Não creio, no entanto, que esteja fazendo algo que me distinga dos demais companheiros de ideal espírita. Sinceramente, acho que faço pouco, deveria me empenhar mais.” Conheci a doutora Marlene em Uberaba, em 1959, quando ela ainda cursava Medicina. Na Rua Veríssimo, a dedicada companheira do bem, desde aqueles anos, já enveredava pelas lides de nossa abençoada Doutrina Espírita, untamente com a chegada de seu amigo de várias décadas nesta presente encarnação, onde frequentou por vários anos a Comunhão Em família, no lançamento do novo livro
  
RESPONSABILIDADE COM PLANO ESPIRITUAL

Logo após sua formatura em Medicina, em 14 de dezembro de 1962, em Uberaba (MG), Marlene, ao se despedir de
Chico Xavier, recebeu dele uma orientação. Chico lhe disse para fundar seu próprio grupo espírita, tornar-se presidente e somente deixar o cargo com a desencarnação, pois a responsabilidade dos encargos era inteiramente dela perante o plano espiritual. Quando retornou a São Paulo, a médica contou ao pai, ao irmão Paulo e aos
familiares as orientações do médium e todos concordaram que deveriam oficializar a fundação do grupo, denominando- -o de Cairbar Schutel, espírito amigo de seus pais, e o mentor espiritual de Marlene, segundo revelações de Chico. E assim nasceu, em 16 de março de 1963, no Jabaquara, zona sul da capital paulista, o
Grupo Espírita Cairbar Schutel (GECS).Ele foi a segunda etapa, digamos assim, do trabalho iniciado pelo pai,
Pedro Severino Júnior, na década de 1950, quando deu início e desenvolveu suas atividades à Rua Bela Cintra, 756, na casa do avô de Marlene, Aristodemo Rossi, e onde ela morava, como Grupo Familiar Conceição Carolina – Conceição era o nome da mãe de Pedro, e Carolina, o de sua sogra. Até 1956, basicamente, eram Marlene, o irmão Paulo e o pai os elementos fixos do grupo, com a participação esporádica de alguns amigos e familiares. Quando foi fazer Medicina em Uberaba, em 1957, Paulo e o pai tocaram, por algum tempo mais, as atividades naquele endereço, transferindo- as depois para a casa de Maria Angela Rossi Sarno, a tia de Marlene, no
Itaim Bibi, que lá permaneceram até a fundação do GECS.

Trabalho assistencial em pro da educação

Com a fundação do Grupo Espírita Cairbar Schutel, nasceu também, em 16 de março de 1963, data em que Marlene deu seu primeiro atendimento médico aos mais carentes em Santo André (SP), a Creche Lar do Alvorecer. Na mesma data, três anos depois, ela foi instalada, definitivamente, no município vizinho, Diadema (SP). No início, a paisagem ao redor era marcada por terrenos baldios, onde, não raro, alguns animais pastavam, poucas casas de alvenaria, mais de uma dezena de favelas e muita violência. Casos agudos de pobreza absoluta. Em 16 de março de 1977, iniciaram-se as atividades para favorecer as mães que trabalhavam. No princípio, as instalações eram precárias. Em junho de 1981, depois de uma mobilização de três anos de seus diretores e colaboradores, a
creche instalou-se no prédio atual. Mais tarde, em 1989, surgiumoral e profissionalmente as assistidas, e, no início de 1990, o Cecor (Centro de Convivência Renovação), voltado para a formação integral do adolescente, que funciona, desde 1994, no prédio das Oficinas Paulo de Tarso. “Em mais de 50 anos, vimos a cidade de Diadema transformar- -se inteiramente. Olhando para trás, constatamos, comovidos, que ela passou de cidade-dormitório para a condição de um município cheio de vida própria. E é muito gratificante saber que, de certa forma, o GECS participou dessa transformação e – por que não dizer? – até colaborou com seu pequenino quinhão para que ela se desse”, declarou Marlene quando da memoração do cinquentenário. O grupo conta hoje com cerca de 250 voluntários, envolvidos nestes e em mais dez outros departamentos, atendendo a 1,2 mil famílias. Os depoimentos a seguir dão a dimensão da extensão dos trabalhos conduzidos pela Creche Lar do Alvorecer, mudando
a vida de colaboradores, voluntários e assistidos: “Tive o privilégio de conhecer a dra. Marlene na infância, em Sacramento (MG), minha terra natal. Eu era levada pelos meus dois avôs – pai da minha
mãe e pai do meu pai –, ex-alunos de Eurípedes Barsanulfo, para assistir às palestras então proferidas pela ‘jovem sobrinha dos Rossi’ no Colégio Allan Kardec. Após alguns anos, vim para São Paulo e a reencontrei. Soube do trabalho desenvolvido em Diadema, envolvi-me nele e aqui estou há 40 anos”, revela Áurea Marly Cunha Guerrero Gutierrez, diretora da Creche Lar do Alvorecer desde 2007.
“O nosso cotidiano era uma junção de troca de carinho e aprendizado, solidificando, dessa forma, nossa futura base emocional, pois, se dentro dos nossos lares não tínhamos o essencial, tanto em carinho como na parte material, na creche supríamos essas necessidades”, destaca Maria Cristina Coelho Pinheiro, filha de Petrina Coelho Pinheiro, a primeira cozinheira da creche, e que nela ingressou ainda pequena. Formada em Pedagogia, com Licenciatura, Docência em Educação Infantil,
Ensino Fundamental e para Gestão Educacional, é a atual secretária do Lar do Alvorecer. “Depois que conheci a casa, minha vida e de toda a minha família transformou-se para melhor. Hoje posso dizer que sou feliz, estava perdida e encontrei a luz, estava com fome e me deram o alimento, estava com sede e me deram água, estava sedenta de conhecimento e conheci a verdade, os benefícios foram muitos, e só Deus para recompensar tantas coisas boas. Sou muito grata a todos que me acolheram nessa casa bendita. Não sei expressar por palavras, para mim a creche é tudo”, afirma Maria Aparecida Lopes de Araújo, a Dona Cida, que passou de assistida a assistente do Lar do Alvorecer, trabalhando na limpeza e conservação. “São muitas e boas lembranças. Tia Marlene nos contava histórias edificantes todas as quintas-feiras quando tinha o Evangelho. Atualmente, trabalhando
com as crianças, posso ver como foi rico o meu aprendizado; poder somar, acrescentar e dividir tudo que um dia aprendi e recebi é muito gratificante”, lembra Priscila Vitorino Rossi Severino, sobrinha da dra. Marlene, que trabalha na creche como educadora. “Costumo dizer que a minha mãe me colocou no mundo, mas quem me criou, me educou, medeu uma estrutura psicológica, espiritual e material foi minha mãe adotiva Marlene Nobre, minha e de muitas outras crianças. A minha história de superação e de força, a vontade de evoluir, devo a ela. Ensinou-me a acreditar em Deus e a procurar o caminho do bem”, declara Raquel Lucilene dos Santos, que ingressou no Lar do Alvorecer em 1985, quando tinha apenas 3 anos de idade, e, hoje, formada em Pedagogia, trabalha como educadora no Projeto Filhos do Lar

O compromisso com  a divulgação da Doutrina

Foi em 18 de abril de 1974 que Marlene comemorou ao lado do marido, Freitas Nobre, com o irmão Paulo Rossi Severino e Jamil N. Salomão o lançamento da Folha Espírita. A data foi uma homenagem à publicação de O Livro dos Espíritos, obra inaugural do Espiritismo, lançada em Paris, em 18 de abril de 1857, por Allan Kardec. Meses antes do lançamento, Jamil Salomão havia visitado Chico Xavier e consultado-o sobre a possibilidade da fundação de um jornal espírita para ser vendido em banca. O médium afirmou que um jornal com essas características era um compromisso do Grupo Espírita Cairbar Schutel, de Diadema, e de Freitas Nobre, que foi seu diretor presidente até a desencarnação, ocorrida em 19 de novembro de 1990. Daí em diante, Marlene assumiu toda a responsabilidade pela Folha Espírita. Nos primeiros anos, o jornal foi vendido em bancas, mas, por força das circunstâncias, teve de prosseguir sua trajetória tão somente no círculo de assinantes e de leitores das livrarias espíritas. Mas nunca parou! Foram milhares de páginas produzidas, nas quais o leitor pode desfrutar de um conteúdo relevante e pertinente. Ao longo destes mais de 40 anos de existência, o jornal passou por mudanças e avanços. Marlene participou de forma intensa das lizações de seu projeto gráfico, da criação da edição digital, de sua presença em redes sociais, sempre buscando a modernidade e seu maior acesso. No dia a dia, após 2004, quando um grupo de colaboradores passou a ajudá-la nas tarefas do jornal, participava da discussão das pautas, direcionava-as e estava sempre on-line dando seu o.k. a tudo o que era feito. Com um delicioso “vamukivamu” ao término de seus e-mails, dava-nos o aval para seguirmos em frente. O compromisso com a divulgação da Doutrina Espírita sempre foi um motor de energia e estímulo para Marlene Nobre. Além do jornal impresso, dedicou-se também ao rádio e à tevê. O programa Diálogos Médicos, da Rádio Boa Nova, idealizado e dirigido por ela, juntamente com colegas da Associação Médico- -Espírita de São Paulo, está no ar desde junho de 1996, e é destaque na audiência da emissora. Já o programa televisivo Portal de Luz teve sua primeira exibição em setembro de 2001. É inegável o legado que Marlene Nobre deixou também na Seara da Divulgação da Doutrina, sua perseverança e fidelidade para com esses ideais inspiraram muitos companheiros no Brasil e no mundo. Dias antes de partir, em um bate-papo com um dos colaboradores do jornal, Conrado Santos,Marlene reiterou a importância da Folha Espírita e disse que sua versão impressa jamais deveria ser encerrada e que deveria continuar cumprindo o seu papel de levar aos leitores a análise dos acontecimentos contemporâneos à luz dos princípios espíritas, os estudos e pesquisas nas áreas da ciência, da filosofia e da religião e as notícias do Movimento Espírita em nosso país e no mundo. “A Folha Espírita não é um jornal para o nosso tempo. Há de ser lida futuramente, inclusive por outros povos”, declarou.

Na liderança de um movimento para unir ciência e espiritualidade

Enumerar os grandes feitos de uma pessoa não é fácil. Quando analisamos um dos aspectos
parece que o trabalho toma uma proporção mais sutil. Mas o que discorrer sobre 47 anos liderando
um movimento de união entre ciência e espiritualidade? Não foi uma tarefa fácil, mas encabeçada
com grande maestria que somente nobres espíritos, de grande envergadura, o conseguem.
Desde 1967, ano em que médicos reunidos em um mesmo ideal estudavam a possibilidade de fundar uma associação em que se pudesse levar tanto aomeio médico quanto ao público os benefícios que a espiritualidade pode trazer à saúde, lá estava Marlene Nobre, participando de reuniões ao lado de seu marido, Freitas Nobre, advogado, jornalista, escritor e político brasileiro. Assim, após algumas reuniões, concretizou-se a Associação Médico-Espírita de São Paulo (AME-SP), em março de 1968, ao lado de outros colegas da área médica, a primeira das 59 existentes hoje em todo o Brasil.
Desta forma, iniciava-se algo que ela pregava com veemência: “falar aos colegas da mesma profissão sobre o espírito, sobreo homem integral, utilizando a mesma linguagem, o mesmojargão”. Sim, sabiamente, através desta forma, consegue-se atingir um número maior de pessoas da área em que se atua. E o melhor, com a linguagem certa, oferecer ao público leigo mais informações sobre a saúde da alma. Aos poucos, as palestras, reuniões e seminários foram tomando uma forma mais robusta e, a partir de 1986, começaram a despontar outras associações que congregam profissionais de saúde em outras cidades e até mesmo Estados brasileiros. Primeiramente surgiu a Associação Mineira de Medicina e Espiritismo, em Belo Horizonte, e, em 1992, a Associação Médico-Espírita do Estado do Espírito Santo. Marcada pelo crescimento do Movimento Médico-Espírita no Brasil e no mundo, a década de 1990 traz o surgimento dos congressos médicos, realizados exclusivamente, no início, na cidade de São Paulo por uma questão logística. Assim, a partir de 1991, a cada dois anos, realizou- se o Mednesp, congresso médico-espírita de âmbito nacional, que deu origem, em 1995, à Associação Médico-Espírita do Brasil – instituição que congregouas AMEs de todo o País.
Em 1995, ano de fundação da AME-Brasil, já existiam nove AMEs, a saber: AME-São Paulo
(SP), AME-Minas Gerais (MG), AME do Estado do Espírito Santo (ES), AME-Campina Grande
(PB), AME-Baixada Santista (SP), AME-Bahia (BA), AME-Rio Grande do Norte (RN), AME-Piauí (PI) e AME-Ceará (CE). Hoje, congregam- se 59 AMEs presentes em quase todos os Estados brasileiros. Por hora, os dois únicos Estados que não contam com AssociaçõesMédico-Espíritas são
Acre e Roraima. Desde então, a presença de Marlene Nobre se fez atuante e vanguardista de Norte a Sul do País, disseminando incantasavelmente, através de seminários, jornadas e encontros, um novo paradigma na saúde. A inserção da realidade espiritual em palestras, textos e pesquisas espertou médicos e profissionais de saúde, que, por sua vez, empenharam-se em se espelhar nessa mulher de grande valor para a ciência espírita, replicando seus conhecimentos nos eventos. Assim, nos últimos 20 anos, mais 50 AMEs surgiram no coração do Brasil, bem como váriosdepartamentos acadêmicos, sempre apoiados na visão de uma Medicina mais humanizada e incentivos para pesquisas científicas cada vez mais presentes aqui e no exterior. AME-Internacional Marlene também deixou sua marca no Movimento Médico- Espírita de diversos países das Américas e Europa, incentivando o surgimento da AME- -Internacional desde 1997 e que veio a tornar-se realidade em 1999. De lá para cá, todos os anos, vários médicos brasileiros e estrangeiros compartilham seus conhecimentos e alcançam mais de 1,5 mil pessoas no exterior a cada visita.
Entre os países em que a AME- -Internacional está presente temos Argentina, Colômbia,
Cuba, Guatemala, Inglaterra, Panamá, Portugal, Suíça e oseventos também já ocorreram
na Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, França, Holanda, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Polônia,
entre outros.